Entrevista com Leandro Silveira

Entrevista com Leandro Silveira, Presidente do Instituto Onça-Pintada.

1. Antes de trabalhar com onças você fez estudos com outras espécies, foi opção ou falta de opção?

Estava na Universidade de Goiás em 1988, quando um incêndio destruiu 100% do Parque Nacional das Emas e o Ibama chamou um especialista norteamericano muito conceituado para fazer uma avaliação, Kent Redford (diretor da Wildlife Conservation Society, WCS). Fui acompanhar a expedição e ele me perguntou: Como você mora em Goiás e não estuda esse parque? E me deu dicas, então comecei a consolidar a ideia de trabalhar aqui. Mas na época ainda não tinha a opção de trabalhar apenas com felinos e, na verdade, quando você estuda um predador de topo de cadeia alimentar, precisa trabalhar com as presas, conhecer a área de vida, é uma escala grande.

Estudei tatus, em especial o tatucanastra, que tem uma população importante no parque. Espalhamos 350 câmeras (armadilhas fotográficas) no parque e conseguimos uma montanha de informações. A Conservação Internacional soube dos dados e manifestou interesse no tatu-canastra, então colocamos parte da equipe para trabalhar nisso. Hoje temos projetos com onças nos principais biomas brasileiros: Pantanal, Amazônia, Mata Atlântica, Caatinga e Cerrado, mas não dá para ser pesquisador de uma espécie só.

2. O brasileiro tem preconceito contra a conservação de um predador potencialmente perigoso para o gado, como a
onça-pintada?

Tem. A sociedade tem uma visão parcial, distorcida. A pior zona de confronto, hoje, é o chamado Arco do Desmatamento, na Amazônia, onde novas áreas estão sendo abertas. O fazendeiro desmata e coloca o gado na cara da onça. Aí começa a predação. E a guerra. O animal vira uma peste.

Na realidade, há um fator psicológico, o impacto da onça não é tão relevante, mas num ambiente hostil qualquer impacto é importante.
O fazendeiro já perdeu gado atolado, com sede, com planta tóxica e quando perde também para a onça acha um culpado do qual dá conta. Então canaliza tudo para a onça. É um impacto contra o qual ele sabe o que fazer: ele vai lá e mata.

3. Vocês contabilizaram a perda por ataque de onça?

No Pantanal, a perda anual por ataque de onças corresponde a algo entre 0,4% e 1,8% do rebanho. É dez vezes menos do que se perde por outros fatores e é irrisório em relação ao que é atribuído às onças. O problema está na percepção humana. Dizer: “Não consigo produzir por que a onça não deixa” é muito mais nobre do que assumir a dificuldade de manejo do gado.

4. E eles conseguem matar abertamente as onças, mesmo sendo proibido?

No Norte de Mato Grosso e em Rondônia ainda existem onceiros por profissão, gente especializada em matar onça, que vive disso. Em Roraima, ninguém tolera os felinos, matar onças é algo trivial. Lá dizem: “Se a onça comer, não defeca”. E matam mesmo. Em outras regiões, como há receio de fiscalização ou de denúncias, muitos recorrem ao envenenamento de carcaças. O veneno é discreto, compra-se em qualquer loja, a onça come e vai morrer no mato. Com isso ficou mais difícil até fazer uma avaliação do quanto se mata de onças no País. Ninguém guarda mais pele ou cabeça de onça, não temos como medir o impacto dos envenenamentos. E além da onça morrem outras espécies: urubus, cachorros-do-mato, raposas… É um paradoxo: quando a caça não era proibida, morriam menos onças e tínhamos como saber o impacto da caça.

5. É possível combater essa prática com educação ambiental?

Um dos grandes desafios é não tratar os fazendeiros como bandidos. O fazendeiro é um empresário. Ele não quer ter prejuízo. Vários
proprietários são ecologicamente corretos, têm reserva legal, tudo como manda a lei. Aí a onça começa a atacar o gado dele. O fazendeiro não quer matar, mas o que fazer? Não existe uma estrutura legal, uma política clara de conservação de felinos que obrigue
o Estado a resolver o problema. Em outros países – Estados Unidos, Austrália, mesmo na Índia – existem programas de reembolso
pelas perdas ou manejo controlado. Aqui, na ausência do Estado para resolver o problema, quem sofre é a onça-pintada, porque
o fazendeiro toma providências por conta própria. O Ibama não tem dinheiro para resolver, então finge que não está sabendo.

6. O que vocês sugerem?

Primeiro é preciso deixar de generalizar ações num País com as dimensões do Brasil, com biomas distintos e problemas distintos. Na Mata Atlântica os ataques são de onça-parda, que é diferente da Amazônia com a onça-pintada nas frentes de desmate, que é diferente do Pantanal, onde a convivência é mais antiga. As escalas na Amazônia e Pantanal são superlativas, existem fazendas de 50 mil hectares, com piquetes impossíveis de manejar minuciosamente. Quando iniciamos o trabalho no rio Negro, no Pantanal, a reação dos fazendeiros foi muito hostil. Então estabelecemos um sistema de compensação: o fazendeiro localizava a carcaça e nós pagávamos o prejuízo, com um contrato para eles não matarem. Demos GPS, câmera digital, treinamos o pessoal deles para reconhecer. Eles achavam a carcaça, checávamos e pagávamos. Fizemos isso durante 2 anos e assim avaliamos o operacional e o custo de um programa desse tipo, além de demonstrar que o prejuízo atribuído às onças é muito menor do que se falava.

7. Este sistema ajudaria na conservação da onça-pintada?

O que custa para pagar os prejuízos é muito menos do que se gasta num parque e é mais eficiente. Em vez de fazer um parque nacional
patrocinaríamos a convivência pacífica nas propriedades, onde os caçadores não entram, não saqueiam, existe vigilância do proprietário, que seria compensado. É viável, mas o governo não faz. Não seria o melhor para o Brasil inteiro, mas funcionaria onde
não se pode matar nenhuma onça, porque a população já é pequena. Em outras áreas seria preciso liberar o manejo. Cada caso é
um caso, mas o Brasil é um país hipócrita nessa questão. A legislação é rigorosa, mas ninguém cumpre. É proibido caçar e pescar,
mas se compra material de caça e pesca em todo lugar. E, quando se fala em manejo, os ecologistas de apartamento querem te trucidar.
Manejo não é carnificina, não é isso. Existem tantos exemplos bons e ruins de outros países, mas o Brasil reluta em conversar
sobre isso.