www.jaguar.org.br | Edição 25 | Fevereiro de 2009
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A primeira captura de onça-pintada nas florestas alagadas da Amazônia
Por Emiliano Esterci Ramalho (coordenador do Projeto Iauaretê) eeramalho@uol.com.br

No dia 31 de outubro de 2008, eu e a equipe do Projeto Iauaretê participamos de um fato inédito na história da pesquisa sobre a onça-pintada no Brasil. Capturamos pela vez primeira vez uma onça-pintada nas florestas alagadas de várzea da Amazônia. A captura foi realizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (RDSM), no Amazonas. A onça foi capturada depois de 11 noites de armadilhagem nas margens do Lago Mamirauá, no coração da Reserva. Local de alta diversidade e abundância de vida, presas e onças. A onça era uma fêmea adulta, jovem (aproximadamente 3 anos), bem alimentada, saudável e apresentando ótima condição física. Quase 50 quilos e 1,8 metros de comprimento. Não estava grávida e também não estava lactante, o que significa que não tinha filhotes. Dentição perfeita. O motivo da captura foi a instalação de um colar GPS no animal para elucidar questões relacionadas ao comportamento e padrões de movimento da espécie nas florestas alagadas. Este ano esperamos capturar mais 10 onças na Reserva.

A minha pesquisa na Reserva Mamirauá se iniciou em 2004, durante o meu mestrado. Os objetivos eram descrever características básicas da ecologia da onça-pintada e testar métodos para a amostragem da espécie nas florestas alagadas de várzea da Amazônia.

Onça-pintada capturada após receber o anestésico via dardo. A onça foi apelidada Iauaretê. Foto: MARTIN B. MAIN  

Equipe do Projeto Iauaretê. Em pé, da esquerda para a direita: Joana Macedo, Sr. Wanderlei, Paulo Faiad, Juliane Cabral. Agachados, da esquerda para a direita: Dalvino, Anselmo, Emiliano Esterci Ramalho. Foto: MARTIN B. MAIN  

Os resultados foram interessantes. A dieta da espécie neste ambiente consiste primariamente de jacarés (Caiman crocodilus e Melanosuchus niger) e seus ovos, preguiças (Bradypus variegatus) e guaribas (Aloutta seniculus). Embora estas espécies de presas já tenham sido relatadas em outros estudos, na várzea elas compõem 80% da dieta da onça-pintada. Em outros estudos, elas raramente representam mais que 20% da dieta. Os dados revelaram também que as onças-pintadas utilizavam a margem de praticamente todos os lagos da área de estudo, indicando que estas áreas são intensamente utilizadas na procura de presas.

Em 2005, iniciei um esforço de amostragem com armadilhas fotográficas para a obtenção de estimativas de densidade populacional da onça-pintada na Reserva Mamirauá. A densidade populacional estimada para a Reserva foi de 10-13 indivíduos/100 km². Através das fotos, foi possível determinar que três quartos da população é de fêmeas, que as onças estão reproduzindo e criando seus filhotes dentro das florestas alagadas e que alguns indivíduos demonstram alta fidelidade às suas áreas de vida (uma fêmea foi registrada no mesmo local em 4 anos consecutivos).

O Projeto Iauaretê foi criado em março de 2007 com o objetivo de estabelecer e consolidar o programa de monitoramento da população de onça-pintada na Reserva Mamirauá, assim como estudar a relação entre a onça-pintada e os moradores locais. As informações geradas pelo projeto servirão de base para a elaboração e implementação de estratégias eficientes de conservação da espécie na Reserva e na região Amazônica. As ações do projeto estão hoje voltadas principalmente para a Reserva Mamirauá devido às limitações de financiamento, logística e pessoal. No entanto, está dentro do planejamento do projeto a expansão das atividades para a Reserva Amanã, a área de entorno das duas Reservas e cidades da região.


 
         

Réquiem para uma onça-pintada: pensamentos sobre Macho B do biólogo que conheceu essa rara onça-pintada das terras da fronteira
Por: Emil B McCain M.S. Borderlands Jaguar Detection Project emilmccain@gmail.com;


Registro do Macho B, obtido por uma armadilha fotográfica em 2005, com aproximadamente 12 anos de idade. Foto: Borderland Jaguar Detection Project.  

Registro do Macho B, obtido por uma armadilha fotográfica em 2009, um mês antes de sua captura. Foto: Borderlands Jaguar Detection Project.  

Macho B viveu uma vida longa e magnífica numa área selvagem, vasta e incrível. A sua presença vai fazer muita falta. No entanto, temos que nos lembrar de uma coisa. Nesses últimos dias de sua vida longa, ele colocou a sua pata em um laço e nos deu um grande presente, um presente que ajudará a garantir o futuro de sua espécie, e possivelmente de suas crias, no sul do Arizona e Novo México, assim como no norte do México. Era um animal muito velho, com tempo de vida restante limitado; de qualquer forma ele ia morrer nos próximos dias ou semanas. Todas as onças-pintadas morrem. Mas ele não morreu sem ser visto ou desconhecido. Todas as criaturas vivas “no final das contas” tentam assegurar a sobrevivência de suas famílias. Antes do Macho B morrer, ele se apresentou para os esforços de pesquisa e conservação de uma fantástica e colaborativa equipe do Arizona/Novo México: o Jaguar Conservation Team. A sua captura chamou a atenção internacional para o tesouro valioso das regiões da Sierra Madres do norte de Sonora, no México, e Sky Island do Arizona e Novo México, EUA. Do dia em que ele mudou a vida dos caçadores Jack Childs e Matt Colvin, até os dias em que ele fez pose para fotografias de armadilhas fotográficas, e depois até o dia em que ele foi levado para uma das melhores clínicas de veterinária em animais silvestres dos EUA, ele mostrou ao mundo que as onças-pintadas ainda andam nas selvagens e diversas regiões do sudoeste dos Estados Unidos.

A sua história vai ser contada junta com a do Urso Smokey. Ele nos deu o seu valioso DNA, pela primeira vez para a ciência moderna, o que revelará informações sobre a sua origem, seu parentesco com outras onças-pintadas, e assim, a viabilidade das onças-pintadas das terras da fronteira. Macho B completou o seu trabalho para a conservação das onças-pintadas das terras da fronteira. A sua morte é terrivelmente triste. Mas agora é a nossa vez de agradecer e aprender com o presente que Macho B nos deu. Temos que trabalhar juntos para a conservação da continuidade da presença de sua espécie no nosso país selvagem.

Macho B era a onça-pintada mais velha de vida livre da história e isso é uma prova da qualidade de habitat aqui no sul do Arizona. O fato de que essa onça-pintada conseguiu sobreviver neste habitat por mais tempo do que qualquer outra onça-pintada em qualquer outro habitat não só confirma que a espécie pode mesmo viver com sucesso aqui, mas também que uma rede enorme de áreas particulares e públicas está sendo manejada de uma forma saudável e sustentável. Porém, essa paisagem e essa rede colaborativa de conservação são frágeis e temos que fazer todo o possível para manter esse habitat para esse felino magnífico.

Macho B andou em grandes partes do sul do Arizona por pelo menos 13 anos, porém, até onde sabemos, somente foi visto duas vezes. Continuam desconhecidas quantas outras onças-pintadas ocorrem sem serem vistas no Arizona e Novo México. Até hoje, o Borderlands Jaguar Detection Project (Projeto de Detecção da Onça-Pintada nas Terras da Fronteira) amostrou somente 12% do habitat potencial no Arizona, e resta mais a ser amostrado no Novo México.

Um aspecto importante na biologia de grandes felinos é a territorialidade, especialmente em machos adultos. Sabemos que o Macho B era um macho territorial por meio dos vídeos que obtivemos dele mostrando três comportamentos diferentes de marcação de cheiro. Quando o território de uma onça-pintada fica vazio, muitas vezes é preenchido por um macho mais novo. É bem provável que outra onça-pintada vá ocupar o território do Macho B. Entretanto, sem reprodução confirmada nos Estados Unidos desde a década de 1920, a presença da onça-pintada aqui depende completamente de dispersão a partir do norte do México. Significa que temos que manter a conectividade de habitat através da fronteira e garantir a segurança da espécie no norte do México. Obviamente, temos muito trabalho a fazer.

A recaptura do Macho B foi absolutamente necessária. Eu tinha monitorado cada passo dele através de tecnologia de satélites. Imediatamente após a primeira captura, o felino pareceu completamente bem. Tinha se comportado exatamente como se esperava, fugiu do ponto de captura para se recuperar numa área escondida. Porém, nos dias seguintes, ficou aparente que os seus movimentos não eram normais e que ele estava passando muito tempo sem se mover. Coletivamente, decidimos checar o local onde ele tinha ficado e os rastros encontrados levantaram mais preocupações. No dia seguinte, um veterinário de animais silvestres numa avaliação visual percebeu que o animal se encontrava em condições muito ruins e que necessitava de mais atenção. Essas coisas sempre acontecem num domingo, mas o Arizona Game and Fish Department conseguiu reunir a melhor equipe possível de um dia para o outro. Os melhores indivíduos juntaram os melhores recursos para capturar o felino para uma avaliação veterinária completa. A missão extremamente difícil e delicada foi maravilhosamente coordenada pelo Arizona Game and Fish Department. Guiados por meus e-mails e ligações da Espanha passando as localizações do animal em tempo real, a equipe realizou uma captura rápida e de baixo estresse.

A sua condição de falha renal completa foi infeliz, mas nada inesperado para um animal da idade dele. Apesar do final trágico, o Jaguar Conservation Team e os seus colaboradores fizeram uma operação fantástica. Quero pessoalmente agradecer cada um dos profissionais que fizeram todo o esforço possível para ajudar essa velha onça-pintada.

Macho B virou um embaixador internacional para a conservação da onça-pintada. Enquanto lamentamos a sua morte, não devemos atribuir culpa ou deixa-la nos separar. Macho B reuniu muitas fontes diferentes para atingir um objetivo comum, e na segunda-feira juntamos todos os nossos recursos para ajudar ele. Em seu nome, quero apelar a todos para mantermos esse impulso em movimento, além de interesses políticos e fronteiras internacionais, e além do tempo de vida de um indivíduo.

Não há palavras para descrever como sinto pela infeliz morte desse felino. Mas estou confortado pelo fato de que as últimas paisagens que visualizou e últimos pensamentos que teve foram do alto na montanha, olhando as suas terras preferidas. Que o seu espírito ande ali para sempre, e os seus descendentes também.

 
 

Marcação de território por onça-pintada no Parque Nacional das Emas, Brasil central

Durante estudo com armadilhas fotográficas no Parque Nacional das Emas em 2008, esse macho adulto de onça-pintada foi fotografado urinando em uma árvore, provavelmente um ato para marcação de seu território com cheiro. O animal foi registrado pela primeira vez no Parque em 2004 através de armadilhas fotográficas. No mês de fevereiro de 2009, durante esforços para captura de onças-pintadas, este macho foi capturado. Pesando 104 kg, com idade mínima estimada entre 6 e 7 anos, se apresentou em ótimas condições físicas. Esperamos que os dados resultantes da radio-telemetria deste animal contribuam muito para o conhecimento da ecologia de onça-pintada no Cerrado do Brasil central.

Por: Instituto Onça-Pintada

 
 

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